Por que e como podemos empoderar comunidades indígenas?

Atualizado: 19 de Jun de 2020


Empoderar, seguindo o dicionário, é a capacidade de conceder poder ao outro ou tornar-se ainda mais poderoso, ou seja, pode ser feito de fora para dentro ou de dentro para fora. Partindo desse pressuposto de aumentar o poder de grupos que não tem um grau de autonomia aceitável, devemos encarar que existem muitos recortes populacionais que devem ser empoderados como as mulheres, negros, comunidade lgbtq+ e os povos originários de todos os países, no Brasil, os indígenas.

Para entender como ajudar a empoderar um determinado grupo devemos fortalecer nossa tese através de dados históricos. No ano de 1500 alguns países do continente europeu começaram expedições marítimas em busca de melhores rotas de comércio com a Índia, novos territórios e conhecimentos. Por acidente chegaram ao território que futuramente seria conhecido como Brasil, uma porção gigante de terra com aproximadamente 4 milhões de nativos distribuídos entre mais de 1.000 povos, com centenas de idiomas, costumes e crenças religiosas. Em pouco mais de 400 anos a colonização conseguiu extinguir 77,5% da população ancestral do país e reduziu suas terras em 87%. Em 2020,a população indígena une cerca de 900.000 pessoas que possuem 13% de terras brasileiras em suas áreas de preservação, essas que são até 11x mais preservadas na Amazônia do que áreas que ficam fora das reservas indígenas.

Falando sobre isso, precisamos conhecer a FUNAI. A Fundação Nacional do Índio, fundada em 1967, tem como missão proteger e promover os direitos dos povos indígenas no Brasil. Cabe à FUNAI promover estudos de identificação e delimitação, demarcação, regularização fundiária e registro das terras tradicionalmente ocupadas pelos povos indígenas, além de monitorar e fiscalizar as terras indígenas. Ou seja, a teoria é ótima, mas não funciona exatamente assim na prática. A FUNAI é uma organização governamental que no fim do dia não tem orçamento, equipe ou poder suficientes para empoderar toda a comunidade indígena. Por isso, aqui vai a primeira forma de empoderá-los: acompanhar a FUNAI, seus projetos, e entender que a ampliação das terras e dos direitos indígenas representam um aumento de até 11x na conservação da natureza. Essa é uma clássica ação de fora pra dentro.

Práticas de empoderamento externo são importantes e podem ter uma aplicação extremamente importante na escala macro, nacional, e em relação ao povo indígena como um todo. Entretanto, é uma falácia muito grande acreditar que o povo indígena é um só. A pluralidade indígena é enorme e conta com mais de 283 etnias, 180 idiomas e 4067 aldeias. Fica claro que dentro de um universo complexo como esse existem muitas formas de se viver a vida e aqui começa o empoderamento de dentro para fora. A população indígena deve ser ouvida, por isso, pessoas que visam ajudar no aumento de qualidade de vida de qualquer comunidade devem começar com uma escuta ativa. Somente ouvindo atentamente os comunitários de uma determinada região que começaremos a entender suas dores e perspectivas de solução. A partir daí o caminho é de ser um facilitador, uma pessoa com outros tipos de conhecimentos que irá ajudar no processo de organização, priorização e articulação de problemas que os próprios indígenas querem resolver. A partir do momento que a população se torna ouvida de maneira horizontal, tem sua cultura e suas crenças respeitadas e incentivas, acontece uma virada de chave mental muito importante: reconhecem que tem força, que tem um grande valor.

Além da escuta ativa em nossa ação individual, é importante que esses povos sejam ouvidos de maneira "institucionalizada". A melhor forma de fazer isso acontecer é colaborando para que representantes de povos indígenas ocupem espaços de poder, o que pouco acontece hoje, seja em posições políticas ou até culturais, com algumas exceções. Como exemplo, o atual mandato legislativo federal só conta com uma Deputada Federal indígena - que foi também a primeira mulher indígena da história a ocupar esse cargo. Caso queira acompanhar o trabalho dela, siga a Joenia Wapichana por aqui.


Desde os primórdios da invasão europeia, o que aconteceu foi o inverso: o silenciamento progressivo desses povos. Os chamados bárbaros ou incivilizados foram constantemente mortos, aprisionados, escravizados, ridicularizados e catequizados, tirando sua liberdade, forma de viver, religião e, em muitos casos, sua vida. Toda essa história pode parecer muito distante da nossa realidade atual, mas de uma perspectiva histórica, foi um dia desses. Para um empoderamento mais duradouro, é necessário, portanto, a escuta ativa, valorização cultural, aumento da capacidade de renda das comunidades, acesso a informação externa, criação de formas de disseminação da cultura indígena e por fim, garantir a representatividade de povos em espaços de poder e tomadas de decisão.


Se isso tudo parecer muito distante, uma sugestão de primeiro passo pode ser visitar uma aldeia que esteja aberta a este tipo de visitação. Exercer a cidadania pressionando o poder público em projetos relacionados a direitos indígenas ou fazendo voluntariado com a Vivalá ou outras entidades de apoio a causa.

Por fim, é importante consumir informação e cultura indígena. Aproveitamos o post para sugerir algumas referências bacanas, além da já citada deputada. O livro "Ideias para adiar o fim do mundo" de Ailton Krenak reúne falas e pensamentos do líder indígena e traz, de maneira simples e potente, um pouco da visão de seu povo. No campo do ativismo, participação política e militância pelos povos indígenas, também temos referências que valem acompanhar, como Raoni Metuktire, David Kopenawa, Sônia Guajajara e Jacir de Souza Macuxi.


Você tem mais sugestões de referências e obras para entender sobre o contexto dos povos originários? Compartilhe aqui nos post também e vamos juntos nesse debate!