O ciclo da Expedição Mata Atlântica

Atualizado: 10 de Jan de 2020




Nosso trabalho em Cananéia foi o segundo que começamos com a visão de capacitação profissional de microempreendedores brasileiros e utilizando nossa própria metodologia, a agora chamada Universidade Vivalá de Negócios.

A história começou quando o biólogo e guia Fernando Oliveira entrou em contato conosco no começo de 2017. Fernando soube de nosso trabalho no Rio Negro, Amazônia, e via grandes sinergias com a situação de Cananéia. 

Localizada no Vale do Ribeira, Cananéia foi uma das primeiras cidades a serem fundadas - na visão dos portugueses - em 1531. Essa pequena cidade que tem pouco mais de 12.000 habitantes hoje, tem uma biodiversidade e cultura gigantes por ser na faixa mais preservada de Mata Atlântica no Brasil e por abrigar povos tradicionais como os indígenas guaranis, quilombolas e caiçaras. 

E, assim, batizamos carinhosamente esse trabalho de Expedição Mata Atlântica!

Depois de 3 meses de planejamento intenso com os comunitários entendendo suas necessidades e as possibilidades de turismo de base comunitária na região iniciamos nosso ciclo em agosto de 2017 em uma Expedição com 25 voluntários que começaram o trabalho de mentoria com 14 empreendedores. Entre os empreendedores tínhamos guias de turismo, pessoas ligadas a agricultura familiar, fabricação artesanal de doces, restaurantes, uma pequena industria de cosméticos, outra de camisetas, entre outros batalhadores, mulheres e homens, que buscavam prosperar em seus pequenos negócios e ter uma vida ainda melhor que estavam tendo. 

A região tinha sofrido bastante pelo assistencialismo e não sabia muito bem como se reerguer. Vou explicar.  Entre meados dos anos 2000 e 2014 a região recebeu investimentos culturais intensivos da Petrobrás que possibilitaram muitas iniciativas a começar a operar e a prosperarem - a intenção foi muito bacana. Entretanto, com o alto fluxo de recursos e a falta de necessidade de atingirem uma sustentabilidade financeira as iniciativas se tornaram altamente dependentes desse fundo, gastando caixa mês a mês, ano a ano, sempre operando no prejuízo.  Quando o escândalo de corrupção na Petrobrás explodiu em 2014 os recursos acabaram e as iniciativas, consequentemente, perderam muita força ou também tiveram que fechar as portas. 

Esse é um dos motivos que acreditamos que as iniciativas que apoiamos devam ser independentes. Independentes do governo, de outras instituições privadas, e até da Vivalá para sobreviverem.  Só assim se consegue a verdade liberdade. 

Durante 2 anos fizemos 8 Expedições para a Mata Atlântica levando no total 131 voluntários e 29 microempreendedores.  Foi um aprendizado fantástico! Em nossas dinâmicas cocriamos soluções efetivas, entre as quais mais nos orgulhamos:

- Auxílio no negócio do Fernando, que conseguiu criar um aplicativo relacionado ao turismo para a região e criar novos roteiros de base comunitária para receberem turistas. 

- Auxílio ao negócio do Seu Zé, que começou a oferecer novos produtos além de ganhar mais margem e saúde financeira na precificação correta de seus cosméticos. 

- Auxílio no negócio do Abílio, da Aldeia Taakuiary-ty que até então vendiam somente artesanato na praça e foram confrontados a expor sua cultura para o mundo, vendendo experiências sobre o conhecimento da natureza, da religião e a cultura dos Guaranis. Nesse projeto em especial ficamos extremamente felizes em vê-los felizes por expor sua vida. Começarem a receber grupos escolares e multiplicarem por muitas vezes seu faturamento, autoestima e qualidade de vida. 


- Auxílio no negócio do Selmo, que teve melhorias gigantes em seu processo de venda de produtos orgânicos e no recebimento de visitantes em seu sítio.


- E finalmente, nossa maior conquista, diminuir preconceitos existentes entre alguns indígenas, caiçaras e quilombolas que colocaram diferenças de lado e aprenderam a conversar, se unir e caminhar juntos para o futuro.

Incrível, não é? Essas são só algumas histórias, as que mais nos marcaram, mas tivemos muitas outras. 

Falamos sempre que a Vivalá cocria, auxilia, porque não fazemos "para" ninguém, fazemos "com" as pessoas. Portanto as vitórias são todas deles, ficamos honrados em poder participar de alguma maneira. 

Depois de dois anos, nós e os comunitários sentimos que o ciclo havia se encerrado, que muita coisa havia sido feita e que era hora de seguirmos em frente. Os comunitários tocando com mais confiança e conhecimento negócios mais estruturados e a Vivalá cumprindo sua missão e criando espaço para chegar em uma nova comunidade e começar tudo de novo.

E mesmo que o ciclo tenha se encerrado, é sem dúvida um lugar que ficará sempre marcado na nossa história.  Te convidamos a conhecer Cananéia e todo o Vale do Ribeira, fazer turismo de base comunitária, entender a cultura dos guaranis e seus rituais, a profundidade que os caiçaras tem com a terra e viver os encantos da natureza da região com botos, trilhas e até indo a praia.

Um brinde, regado a catáia! Obrigado, Expedição Mata Atlântica!


Daniel Cabrera

Co-fundador e Diretor Executivo da Vivalá