O bom filho a casa torna

Trabalhar com comunidades na Amazônia fazendo ecoturismo de base comunitária e voluntariado sempre foi um sonho pra nós e demos valor em cada momento, avanço comunitário, interação com a natureza e nas amizades criadas no caminho.

Em um calendário constante de expedições nos últimos três anos, tivemos nosso maior hiato da história, ficando mais de 8 meses sem fazer uma expedição para a região por conta das incertezas criadas pela pandemia e isso deixou os nossos corações apertados. Ficar sem fazer o que amamos, sem a conexão com as comunidades, com a distância de tantos amigos que criamos e a preocupação com cada família e região que conhecemos não foi fácil. Dizem que é na distância que damos valor, e esse tempo só serviu pra reforçar o quanto somos apaixonados pela Amazônia e seu povo.

Saindo de São Paulo com destino à Manaus, estava vidrado na janela para ver a paisagem. Por conta do período de seca, consegui ver todas as praias de rio enquanto sobrevoava o Rio Negro, o que automaticamente criou um sorriso largo em meu rosto e a sensação de que “Finalmente, estamos de volta!”. Alegria essa que só aumentou quando conheci o grupo que iria conosco para a Expedição. Foram 22 pessoas, de quatro estados, com histórias diferentes e muita vontade de se conectar.



No nosso dia de chegada em Manaus, fizemos o famoso passeio do Encontro das Águas, fomos até o Teatro Amazonas, jantamos no delicioso Tambaqui de Banda e tivemos muita resenha em um barzinho ao lado, onde o grupo se conhecia, trocava experiências e dava muita risada. A noite com 26ºC dava o clima perfeito para esse enredo.



Já no segundo dia de manhã partimos em direção ao interior do Amazonas, mais especificamente subindo o Rio Negro em direção à comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, conhecida carinhosamente por nós como Acajatuba. Com a brisa do vento no rosto, sol quente e aquela paisagem maravilhosa ficavámos cada vez mais imersos no clima da região. Conforme chegávamos mair perto da comunidade, passamos a cruzar pequenos barcos de pescadores e de comunitários, indo e vindo, e nós, como sempre, dando aquele tchauzinho de comprimento para o pessoal, que carinhosamente sempre responde.



O dia estava lindo! Fizemos nosso check in no Caboclo’s House, pousasada comunitária em que somos sempre tão bem recebidos, e já saimos. Fomos direto para o flutuante onde acontece interações ao ar livre com botos cor de rosa. Munidos do auxílio de um instrutor profissional que segue as orientações do Ibama e ICMBio, apresentamos aos volunturistas um flutuante que fica sobre três correntes aquáticas cheias de peixes, lugar perfeito para estar próximo com botos selvagens em seu espaço de caça. A experiência é sempre divertida e arranca sorrisos, sustos, surpresas e curiosidade no pessoal que tem aquela mistura de prazer e medo ao sentir os botos passarem em suas costas em embaixo de suas pernas.

Bem próximo do flutuante dos botos existe um outro flutuante, esse do Sr. Shell. Esse é o apelido para o Sr. Francisco da Silva Gomes, de 71 anos, pai de 15 filhos e patriarca de uma família bem grande do interior do Amazonas. Sempre trabalhando, com um sorriso no rosto e grato pela vida, a companhia do seu Sr. Shell é sempre muito fácil e agradável. Ele e a Dona Celina, através das mentorias, criaram um espaço para receber pessoas no flutuante, para nadar, tomar cerveja e comer piranha frita, uma iguaria da região. Como Sr. Shell e a Dona Celina são idosos, ficamos mais distantes nesta expedição como forma de cuidado, mas aproveitamos o fim de tarde na praia de rio que se formou ao lado da casa deles, com direito a um tipo de delivery de barco para consumirmos no local. A turma animou e teve até futebol, com muita diversão e sem muito talento, mas que serviu pra fazer todo mundo dar risada, suar e fazer o banho de rio ainda mais prazeroso.



Estava chegando o fim da tarde, o corpo submerso nas calmas águas do Rio Negro e os sorrisos no rosto do pessoal pareciam uma constante. Assuntos profundos aconteciam em uma roda, o pessoal brincando com as crianças em outra, pessoas andando sozinhas na praia de rio fazendo agradecimentos e contemplando o local. Aquela sensação de gratidão genuína que poucos momentos e lugares são capazes de proporcionar.


Dormimos felizes e nos preparamos para a manhã seguinte que seria de voluntariado. Na Vivalá fazemos um tipo específico de voluntariado voltando para a capacitação profissional de microempreendedores comunitárias nas comunidades onde atuamos. Em nossa metodologia, a Universidade Vivalá de Negócios, criamos 10 módulos para formar comunitários em empreendedorismo e empoderá-los para que fiquem cada vez mais independentes e com controle sobre suas vidas. Nesta Expedição, aplicamos o módulo de Gestão Sustentável e a retomada não poderia ter sido mais especial. Depois de quebrarmos o gelo através da música de boas vindas da comunidade, nos separamos em grupos e começamos os trabalhos.

Nosso grande objetivo é integrar conhecimento dos comunitários, dos volunturistas, utilizar a metodologia da Vivalá e criar um plano de ação que faça sentido para o comunitário evoluir em um determinado tema ou área de sua vida profissional. Falando de Sustentabilidade, nosso objetivo era entender quais eram pontos que iam bem e outros que poderiam melhorar nos aspectos ambientais, sociais e financeiros – tripé que compõem a definição de sustentabilidade que mais usamos. Além das metas individuais de cada negócio, o plano era traçarmos também metas coletivas, comunitárias, que precisariam do apoio e compromisso dos presentes para acontecer. Quando chegamos nesta parte da mentoria, reunimos os comunitários e dissemos: “Agora ficaremos de ouvintes”. Como não moramos em Acajatuba, aquela roda e momento de troca não era nosso lugar de fala ou de atuação, e o que fizemos foi apenas reunir os comunitários e mediar a conversa para que achassem soluções efetivas para suas realidades. Uma hora depois do inicio das tratativas, a conversa se evoluiu e o primeiro Comitê de Meio Ambiente foi criado em uma comunidade onde fazemos Volunturismo, que fantástico!

Este comitê, composto por todos os presentes e muitos outros que irão entrar, nasceu com datas de encontros já marcadas e um compromisso principalmente com as tratativas com o lixo da comunidade. Isolados em áreas distantes dos grandes centros urbanos, muitas comunidades da Amazônia encontram problemas com seus resíduos. A coleta de lixo muitas vezes acontece somente uma vez por semana - seletiva nem pensar - e grande parte dos habitantes se acostumou a queimar parte de seus lixos. A preocupação dos comunitários foi notória ao entenderem que, quando se compara a abundância natural atual da região e o que é relatado pelos seus antepassados, a conclusao foi de que muito se deteriorou e que um trabalho massivo de preservação deve ser feito para manter aquela região mágica a mais intocada e natural possível.



Chegamos ao fim de mais uma etapa da Universidade Vivalá de Negócios, e como sempre, cada um dos empreendedores levantou para contar para todo mundo seu plano de ação estipulado. Antes do fim de todas as apresentações, vi de longe a Babi, do Sabores da Floresta, empreendedora mentorada pela Vivalá e que contratei para fazer um bolo de aniversário para o Felipe (volunturista que fazia 28 anos naquela semana) e para o Savio (um dos nossos empreendedores mais novos e que fazia 17 anos).


Eu havia encomendado um bolo de chocolate para a Babi e quando vi um bolo branco eu achei, de longe, que ela poderia ter se confundido. E foi aí que veio uma grande surpresa. A comunidade fez uma homenagem linda para a Vivalá, agradecendo a parceria e dando as boas vindas para nosso retorno.


Me emocionei demais e as lembranças de cada expedição feita desde 2017 começaram a passar na minha cabeça de maneira muito intensa. Sermos úteis para aquelas pessoas, termos criado vínculos, amizades e parcerias verdadeiras são e sempre foram nosso maior presente. O bolo veio com um cartão e, aparentemente, todo mundo queria me ver chorar. Pediram várias vezes para que eu lesse em voz alta, e assim o fiz. Ler as mensagens de carinho e gratidão fizeram minha garganta amarrar e meus olhos se encherem de lágrimas. Era uma mistura de alegria, respeito pelo que construímos, alívio por estar de volta e reforçar o quanto eramos queridos pela comunidade. Que momento!


Nos despedimos da comunidade em clima de festa e com a sensação de dever cumprido ao termos tido sucesso em mais um passo dado dentro de nossa metodologia. Nesse momento, ainda no barco retornando à Caboclo’s, alguém diz “Hoje é noite de lua cheia!”. Quando olhamos, ela estava realmente fantástica e a foto acima representa um pouco dessa magnitude naquela noite.

Após o jantar saímos para contemplar o céu, as estrelhas e olhar os pequenos olhos dos Jacarés que brilham com a luz do barco. Nesse passeio ficamos cerca de 10 minutos em silêncio, no meio do Rio Negro, imersos no som da natureza com pássaros, grilos, corujas, peixes, além de nossos pensamentos e sentimentos. Tempo curto, mas que nos faz entrar de maneira profunda em nós mesmos.

Voltamos ao Caboclo’s, e como sempre, comemos como reis. A turma do Amazonas cozinha muito bem e algumas pessoas têm um talento ainda mais marcante. Naquela noite comeríamos salada, arroz, tambaqui, lasanha de pirarucu, legumes ao forno, e tantas outras coisas que eu até esqueci. Não era uma noite qualquer, e fomos recebidos pela Rose, cozinheira da Caboclo’s House, vestida como chef de cozinha, toda produzida. Naquela hora ela revelou que havia se tornado Chef depois de 6 longos anos de estudo, de muitas dificuldades e de ter perdido seu marido no ano passado. As lágrimas caíram ao agradecer nossa presença, o apoio da Nilde, a saudade de seu marido e de como ela queria que ele estivesse presente para ver aquele momento. Uma forte salva de palmas começou e com gritos de “Rose, Rose, Rose!” elevamos seu espírito, fizemos brindes e todos a parabenizamos. Não é porque é a Rose não, mas estava fantástico e ela ficou feliz da vida em ver tanta gente contente.


A noite estava perfeita, e após o jantar nós começamos a oficina de Carimbó, ritmo local, administrado pelas Meninas do Carimbó, negócio criado pela Karla e Ariany que surgiu através das mentorias e que realiza aulas de carimbó para que o pessoal conheça o ritmo, brinque e se divirta.


Depois da oficina ainda tivemos a apresentação do nosso DJ Gabriel Prince (melhor que o Alok) que sempre toma conta das pick-ups e faz todo mundo dançar tocando carimbó, funk, house, axé e o que mais a galera pedir.


Depois da nossa noite de festa, acordamos 15 para as 5 da manhã para ver o nascer do Sol e todo mundo ainda estava “amassado”. Naquele ritmo onde ninguém sabia muito bem onde estava, embarcamos em canoas e nos posicionamos em um local estratégico para ver o sol nascer. Ainda era a noite quando começamos a sentir os primeiros raios de sol, acordando e maravilhando todo mundo. Pouco a pouco ele ia surgindo e a paisagem ficando cada vez mais bonita. Começar nosso último dia de expedição com aquele momento foi bom demais.



Logo em sequência, fomos fazer uma trilha na floresta, onde nosso guia Gabriel mostra na prática um dos motivos do porquê se deve contratar um guia local com um conhecimento ímpar sobre a região e seus recursos naturais. Ele nos ensina ganhar senso de direção na floresta, identificar cipós d’água para beber, alimentos e semente ricos em proteína, como fazer barulho para chamar ajuda, entre outras curiosidades. Temos nesse momento a possibilidade de estar próximos à arvores gigantes e com uma sensação de sinergia total com o meio.

Depois da trilha, retornamos para um banho rápido, fizemos nossa cerimônia de encerramento agradecendo toda a equipe presente que faz as expedições acontecerem e convidando os volunturistas para fazerem cada vez mais turismo sustentável, de base comunitária, voluntariado e de se envolverem com o país e suas comunidades locais. Falamos que todo consumo é um ato político e que queríamos lembrá-los de consumir turismo, roupas, alimentos, entretenimento, da mesma maneira. Cada vez que gastamos dinheiro em um lugar nós incentivamos aquela organização a continuar, a prosperar e essa era uma decisão importante em cada uma de nossas escolhas.


Já deu pra perceber que esses dias foram incríveis, né? Misturar aéreas naturais incríveis, turismo de base comunitária e voluntariado apoiando as pessoas da região em seus sonhos torna a expedição uma experiência única.


E você, está pronto para viver isso com a gente?

As vagas de 2021 estão abertas e você pode ver todos os detalhes em nosso site https://vivala.com.br/volunturismo ou falar com um de nossos especialistas sobre cada detalhe das expedições.


Relato escrito por Daniel Cabrera, Fundador da Vivalá

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